O Bitcoin (BTC), a moeda virtual mais conhecida, cota nos 7400 dólares, máximos desde meados de novembro do ano passado. Desde o início do ano sobe quase 100%, após as fortes perdas verificadas em 2018, de quase 75%. Apesar do contínuo aumento dos ataques cibernautas todos os anos, a confiança no Bitcoin não tem sido abalada, e espelha cabalmente a capacidade deste ativo financeiro continuar, provavelmente, na senda dos ganhos nos próximos tempos. No início de maio foram roubados 7000 Bitcoins, equivalente a 52 milhões de dólares, à Binance, uma das maiores bolsas de criptomoedas do mundo, e, no entanto, após uma queda à volta de 4%, o BTC recuperou todas as perdas e segue em máximos dos últimos seis meses. Em maio de 2020, cada bloco “minerado” passará de 12,5 BTC para 6,25 BTC, e o mercado poderá estar a antecipar essa diminuição da oferta.

Neste momento, existem cerca de 17,7 milhões de BTC minerados, 84% do total possível de 21 milhões de BTC.

A atual cotação, a capitalização é de 116 mil milhões de euros, à volta de 66% da riqueza criada em Portugal num ano.

Não é um valor suficientemente elevado, capaz de gerar instabilidade e incerteza nos mercados financeiros, e muito menos em termos macroeconómicos, caso haja um aumento exponencial da volatilidade da BTC ou mesmo um colapso da moeda virtual mais prestigiada do momento.

Em janeiro de 2009 foi minerado o primeiro bloco. No começo da moeda digital Bitcoin, cada bloco continha 50 bitcoins. A volta de cada dez minutos um bloco é minerado. No entanto, aproximadamente de quatro em quatro anos os blocos minerados passam a conter metade dos bitcoins do período anterior, e este processo de divisão pela metade é conhecido por “Halving”.

Significa que a inflação nominal deste ativo financeiro vai diminuindo.

O primeiro “Halving” foi a 28 de novembro de 2012, quando cada bloco passou de 50 para 25 BTC. O segundo “Halving” deu-se a 9 de julho de 2016 e cada bloco passou de 25 para 12,5 BTC.

A próxima divisão será a 23 de maio de 2020, quando cada bloco minerado a cada dez minutos conterá apenas 6,25 BTC. E assim sucessivamente…

A taxa de inflação nominal da BTC é hoje de 3,8% e a partir de maio de 2020 será aproximadamente de 1,8% e vai diminuindo continuamente, aproximando-se de zero. No entanto, a inflação real é a que interessa, está relacionada com o seu poder aquisitivo, e será aquilo que o Bitcoin conseguir comprar. Neste momento, um BTC vale 7400 dólares americanos (USD), cerca de 6600 euros. Com um BTC consigo comprar cerca de dez televisões, um quarto do valor de um automóvel ligeiro de gama média, quase seis smartphones da nova geração da Apple, o iPhone XS…

Aquando do primeiro “Halving”, em 2012, existiam minerados 10 milhões e 512 mil BTC, no segundo “Halving”, em 2016, 15 milhões e 768 mil BTC, e a 23 de maio de 2020 serão 18 milhões e 396 mil BTC. A quantidade minerada é cada vez menor, e os custos de mineração, nomeadamente com energia elétrica e computadores mais potentes, são exponencialmente crescentes, e são fatores que poderão estar por detrás das subidas nos últimos 6 meses e poderão continuar a catapultar o BTC para máximos até ao próximo “Halving” em maio de 2020. As transações baseadas na tecnologia no “Blockchain” da BTC demoram cada vez mais tempo, devido ao processo mais longo de validações, sempre desde o início, e poderão ser um entrave ao seu sucesso.

Segundo Mário Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), as criptomoedas não são moedas, mas ativos com um risco bastante elevado, e não compete ao BCE regular as criptomoedas. Draghi refere que o BTC é “algo que está dentro da competência da proteção do consumidor, e o BCE pretende ter a certeza de que as pessoas que compram esses ativos sabem o que fazem e estão cientes dos riscos que correm”. Atualmente, e segundo o que é público, o BCE não tem planos para emitir a sua própria moeda digital. Mas, eventualmente, num futuro próximo, isso pode acontecer…

A comunidade de aficionados de moedas virtuais criticou a postura de Draghi e apontou para a inflação das moedas fiduciárias como uma prova de que o euro também não é estável.

Paulo Rosa, Semanário “Vida Económica”, 17 de maio

Paulo Monteiro Rosa