Desmistificamos o mundo das finanças
18 Abril 2026

Jornal de literacia financeira

Economias que crescem baseadas no crédito descontrolado têm o futuro hipotecado.

De cada vez que a economia global sai de uma crise, o ritmo de crescimento é menor e o endividamento é maior. No período entre crises de 1992 a 2000, as economias cresceram mais e o endividamento era menor. Entre 2000 e 2008 o crescimento económico já foi menor que o anterior, mas o crédito concedido, em percentagem do PIB, foi maior. Entre 2008 e atualmente, 2018, as economias crescem ainda menos que no período anterior e a dívida relativa está em níveis históricos.

A ideia atual de que existe um crescimento económico sólido,

sustentado e duradouro, e que é corroborada pelos bancos centrais, governos e organismos internacionais é ilusória. Apesar da turbulência, estamos numa situação de estagnação secular. O crescimento galopante que se vê é o da dívida dos Estados, famílias e empresas, que culminou, no ano passado, no rácio dívida/PIB mais elevado de sempre nos 320%.

A dívida total mundial foi de 237 triliões de dólares em 2017. Em 1999, era de 80 triliões de dólares e o valor relativo (rácio da dívida total mundial em percentagem do PIB) era uns preocupantes 180%.

 

A maioria dos bancos centrais, muitas vezes reféns dos executivos, e a maioria dos governos, amarrados às agendas eleitorais, tentam evitar a dor. Um ajustamento económico ajudaria a melhorar a economia e torná-la sustentável no longo prazo.

Mas as autoridades perpetuarão o problema com políticas que favorecem a procura, esquecendo o motor da economia: a oferta. Os governos têm optado pelo resgate e subsídio às partes menos produtivas, o que redundará em menor crescimento, baixa produtividade e mais dívida. Em suma, estagnação secular. A má alocação de capital é incentivada e o mau investimento é apoiado. Em todos os países, temos saído das crises com taxas de crescimento menores que nos ciclos anteriores, mas com dívidas cada vez maiores.

A solução passa pelo incentivo à poupança e ao investimento, reduzindo o crédito. A crise de 2008, que alguns consideram tão grave como a de 1929, pode repetir-se de forma aumentada. Já há alguns sinais: as bolsas emergentes descem há mais de um ano e algumas já estão em “bearmarket”, as europeias estão aquém dos máximos. As resistentes são as bolsas dos EUA que ainda há duas semanas se encontravam em máximos históricos. A curva de rendimentos da economia norte-americana está a alisar, com a subida das taxas de juro dos prazos mais curtos, o que indicia fadiga. A FED continua empenhada na subida dos juros, com a inflação mais perto dos 3% e a economia em pleno emprego. Caso a rentabilidade da obrigação do tesouro a 10 anos chegar aos 4% ou 4.5%, a recessão poderá ser uma realidade.

[avatar user=”PauloMRosa” size=”thumbnail” align=”left”]Economista / Sénior Trader do Banco Carregosa[/avatar]

Paulo Rosa, Semanário “Vida Económica”, 19 outubro 2018

Autor

  • Paulo Monteiro Rosa

    Economista / Sénior Trader do Banco Carregosa. Licenciado em economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Autor de vários artigos publicados no Jornal de Negócios, Diário Económico, Vida Económica, Público, Funds People, ATM-Associação Analistas Técnicos Mercados Capitais e Câmara de Comércio Luso-Americana. Autor do Blogue: Omnia Economicus.