Desmistificamos o mundo das finanças
18 Abril 2026

Jornal de literacia financeira

A AMÉRICA CONTINUA GRANDE, APESAR DE DONALD TRUMP

Na semana passada os dois principais índices chineses, o tecnológico Zhenzhen e o Shanghai, registaram mínimos dos últimos quatro anos (os valores mais baixos desde outubro de 2014), devido aos receios de abrandamento económico. Desde os máximos, verificados em meados de janeiro, o Zhenzhen perde quase 30%.

Porém, e em contraponto, as bolsas norte-americanas registam os valores mais altos de sempre (Dow Jones, S&P500 e Nasdaq100) beneficiando do bom comportamento das empresas tecnológicas e das taxas de juro que, apesar da subida, continuam baixas e ainda não pressionam as bolsas.
No dia 26 de setembro a Reserva Federal subiu a taxa de juro para 2.25% e, muito provavelmente, voltará a subir 25 pontos base, para 2.5%, a 19 de dezembro.

Já em 2015 e 2016 as bolsas chinesas foram penalizadas pelo receio de abrandamento económico. Na altura registaram fortes perdas que não voltaram a recuperar. As tensões comerciais continuam a pressionar a economia chinesa e a moeda, reflexo do seu cariz exportador maioritariamente para os EUA.
O significativo défice comercial dos EUA pode justificar esta política por parte da administração de Donald Trump, no intuito de corrigi-lo.

O défice comercial dos EUA, à volta dos 600 mil milhões de dólares anuais, 3% do PIB norte-americano, representa grosso modo o superavit chinês, alemão e japonês.

Todavia, os ajustamentos comerciais, que podem fazer sentido em termos locais e no curto prazo, não devem ser realizados com protecionismos ou políticas nacionalistas.

E, na realidade, a economia norte-americana é a menos protecionista dos três grandes blocos económicos mundiais (EUA, Zona Euro e China).

A atual guerra comercial é semelhante à do período pós-grande depressão de 1929 no que concerne ao renascer dos protecionismos. Uma das principais medidas utilizadas pelos países para ultrapassar a crise financeira e económica foi fecharem-se sobre si próprios.
O período atual é algo análogo e vale a pena refletir sobre o que aconteceu depois do período entre 1930-40 quando pensamos sobre as atuais relações EUA-China.

O Renminbi/Yuan continua a espelhar o enfraquecimento da economia chinesa. Perde cerca de 10% desde o início do ano, apesar das autoridades referirem que não vão usar a sua moeda como “arma” na guerra comercial. O yuan afundou quase 1% no dia 23 de setembro, depois de a China ter cancelado as conversações comerciais com os EUA. Decididamente, esta é mais uma prova de que, neste diferendo, o elo mais fraco é o país asiático.

A excelente formação existente na maior parte dos países desenvolvidos culmina, em parte, na emigração para os EUA de jovens prodígios de todo o mundo no campo da engenharia e biotecnologia. Na China, na Indonésia, na Alemanha, em França, no Dubai, muitos jovens ambicionam ir para grandes multinacionais norte americanas. É um facto há cerca de cem anos. Já Einstein emigrou para os EUA tal como os grandes cientistas europeus do pós-guerra. As maiores capitalizações bolsistas, a nível mundial, são empresas tecnológicas norte-americanas: Apple, Amazon, Google, Microsoft e Facebook.

A entrada em bolsa de novas empresas é sucesso garantido nos EUA. A 21 de setembro a OPV da portuguesa Fartech subiu à volta de 40% na estreia na bolsa de Nova Iorque.

A dívida pública norte-americana é de 21 triliões de dólares, cerca de 105% do PIB nominal, e é detida em grande parte por institucionais, empresas e famílias norte-americanas. Existe um mito de que a China tem um grande poder de influenciar o rumo da dívida americana, mas tem apenas 5%, a par do Japão. Estes dois países asiáticos acumulam divisas sobre os EUA devido ao comércio internacional, que lhes é favorável, e compram dívida pública americana para beneficiar dos juros à volta de 3% e da segurança do dólar.

O DAX30 alemão está a 10% dos máximos, refletindo o cariz exportador da economia germânica, desde os automóveis à área farmacêutica e tecnológica. O francês CAC40 está a apenas 3% dos máximos históricos.

 

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Paulo Rosa, in Semanário “Vida Económica”, 28 setembro 2018

Autor

  • Paulo Monteiro Rosa

    Economista / Sénior Trader do Banco Carregosa. Licenciado em economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Autor de vários artigos publicados no Jornal de Negócios, Diário Económico, Vida Económica, Público, Funds People, ATM-Associação Analistas Técnicos Mercados Capitais e Câmara de Comércio Luso-Americana. Autor do Blogue: Omnia Economicus.