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18 Abril 2026

Jornal de literacia financeira

A MORTE DA FAMOSA CURVA DE PHILLIPS

A famosa curva de Phillips, teoria desenvolvida pelo economista neozelandês William Phillips há 60 anos, relaciona a descida da taxa de desemprego com a subida da taxa de inflação de preços no consumidor e vice-versa.

Essa teoria explica a correlação negativa entre as duas variáveis macroeconómicas.

O curioso é que esta relação não se tem verificado nos últimos oito anos, nomeadamente na economia norte-americana. A taxa de desemprego desceu dos 10% em 2010 para 4.1% e a taxa de inflação manteve-se baixa. Na economia alemã também temos observado uma descida significativa da taxa de desemprego a par de uma baixa taxa de inflação.

Na década de 70, essa teoria deixou de ser verificada empiricamente, principalmente devido ao choque petrolífero, quando assistimos a altas taxas de inflação e de desemprego. Os economistas norte-americanos Milton Friedman e Edmund Phelps chegaram à conclusão que determinante é a variação da inflação e não a taxa, depois de terem em conta o método das expectativas adaptativas para a inflação. No longo prazo a inflação observada será igual à esperada, e não se verificará nenhuma relação inversa entre a inflação e o desemprego.

Os países desenvolvidos são pautados por baixas taxas de inflação e de desemprego. Mais produção é sinónimo de descida de preços, logo uma descida da taxa de desemprego é sinónimo de uma descida da inflação de preços no consumidor e vice-versa.

A Suíça, o Japão, a Alemanha, os EUA, entre outros países desenvolvidos, têm taxas de desemprego baixas. Estão praticamente em pleno emprego e a inflação é também baixa. Já em países subdesenvolvidos, muitas vezes devido à política dos governos – como a Venezuela e outros países da América Latina e do continente africano – observamos taxas de desemprego elevadas e taxas de inflação também bastante altas. Sem produção, a taxa de desemprego é elevada e como não existe nada para comprar, os preços dos bens e serviços sobem.

Perante a inversão da curva de Phillips, com taxas de desemprego e de inflação baixas, temos assistido a máximos históricos diariamente, nos últimos meses, em várias das principais bolsas mundiais, desde a principal bolsa de ações germânica (Frankfurt) aos máximos históricos diários dos índices norte-americanos, S&P500, Nasdaq100 e Dow Jones 30.
No curto prazo haverá alguma relação negativa entre estas variáveis macroeconómicas.

Mas no longo prazo a taxa de inflação não influencia o nível de emprego. No muito longo prazo quase que poderemos afirmar que as economias com baixas taxas de desemprego, ou seja as economias mais desenvolvidas do mundo, estão associadas a baixas taxas de inflação, e por arrasto a baixas taxas de juro também, logo a curva de Phillips não fará qualquer sentido.

Paulo Rosa, In “Vida Económica”, 12 de janeiro 2018

Autor

  • Paulo Monteiro Rosa

    Economista / Sénior Trader do Banco Carregosa. Licenciado em economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Autor de vários artigos publicados no Jornal de Negócios, Diário Económico, Vida Económica, Público, Funds People, ATM-Associação Analistas Técnicos Mercados Capitais e Câmara de Comércio Luso-Americana. Autor do Blogue: Omnia Economicus.